Hoje de manhã me lembrei de como era o mês de dezembro há uns 10 anos, no tempo onde eu não trabalhava e não pegava recuperação no colégio. Antes eu agonizava para que dezembro corresse devagar e eu aprendesse tudo que não tinha estudado para passar de ano sem méritos, mas cantando vitória. Atualmente a reza é para que o mês voe até o natal e às festas. Férias.
Legal mesmo era passar o mês inteiro sem fazer absolutamente nada, decorando a programação da Globo e do SBT, indo até a varanda para ver o por do sol, passeando com o cachorro. Sair nas ruas a esmo, como se para encontrar alguma coisa, alguma rua diferente, uma nova construção, eis uma coisa que eu gostava e nunca soube porque. Uma coisa que só era boa em dezembro, pois o clima ameno era mais convidativo que o de julho e ainda não tinha as viagens de janeiro. Dezembro é o mês do respiro, daquela brisa leve que bate antes da canoa virar na corredeira abaixo, antes do Coyote perceber que perdeu o solo e terá uma queda iminente assim que olhar para baixo.
Essa vertigem típica do último mês do ano, tão aguardado por causa do natal e tão lamentado por ser o mês da reflexão sobre o ano corrente, sempre me causou acidentes pitorescos. Como dizem os mais populares, para fechar o ano com chave de ouro eu sempre dei uma das minhas. Ano passado esqueci do presente de natal de quase toda minha família; no retrasado, na Austrália, agraciei minha ceia de natal com vinho de caixa e pizza Dominos; uma vez, na infância, abri o queixo na quina da mesa; no tempo dos primeiros passos e pedaladas, enfiei minha bochecha no guidão da bicicleta do meu irmão – o que me deixou com uma cicatriz redonda que até hoje parece que fui queimado a ferro. Minha primeira batida de carro foi em dezembro, meu primeiro grande porre (se eu me lembro) também. O mês também era a temporada para (re)colocar aparelhos na boca, tampão nos olhos (sim, eu já usei) e torcer os joelhos. Tudo que pode dar errado comigo, só dá errado no fim do ano – maldita chave de ouro que deixa seqüelas e atrasa minha vida.
Assim me encontro quase que a espera da contusão, da burrada, do gran finale. Digo melhor, eu nunca espero, pois o mês é de superação. Superação no trabalho por ter que fazer tudo apertado junto com as provas finais e superação na faculdade por ter que estudar, passar, trabalhar, viver, etc. Chega dezembro e tenho que teimar por frações de notas que me livraem de dependências e dores de cabeça no futuro.
Nesse mês eu já fiquei sem gasolina no meio da rua, sem dinheiro no restaurante, quebrei meus óculos, perdi viagens, perdi ônibus em plena chuva, perdi o limite do banco. Tudo isso um pouco comum, tudo isso um pouco surpreendente, mas nada me chocou tanto quando romper os ligamentos do meu pé direito ontem no futebol. Justo o direito! Justo em dezembro! Justo agora!
Estou triste, pois me encontro sozinho em casa sem fazer nada, como há 10 anos atrás. Hoje eu não posso sair pelas ruas com meu cachorro, mal posso ir até a varanda. Pior, tenho com meu pé enjaulado numa bota ortopédica por 3 semanas, um chorinho para quem quebra as pernas, mas para mim é a sentença de um ano novo diferente e com muita areia dentro da bota, coceiras, não dirigir, imobilidade, impossibilidade de surfar, impedimento de jogar bola e não vou fazer mais uma porção de coisas que precisam do pé direito.
De todos os males que me assombram em dezembro, nenhum se arrastou até o ano seguinte. Dessa vez vai ser diferente, talvez seja só drama mesmo, talvez eu (que nunca me fraturei) possa estar reclamando de pouco. Tenho motivos para acreditar que é pura zica, azar, mandinga. Ano que vem eu serei eleito a personalidade do ano pela Time ou ganhe algum festival do You Tube e quando me perguntarem da onde veio toda a motivação para que meu ano fosse tão brilhante, eu só vou dizer que resolvi mudar depois de passar a manhã no hospital com o ligamento rasgado.
quarta-feira, 19 de dezembro de 2007
quarta-feira, 5 de dezembro de 2007
O natal do menino avestruz
Eis o menino avestruz dobrando a esquina com seu passo largo e desregulado. Eis o frio do inverno da tv americana que bate e arrepia os cangotes torrados dos brasileiros; chaminés, renas e neve compõem o natal do menino avestruz, o menino que tudo come, o menino que do seu nome cavou a cabeça no chão para fugir do que não quer ver e escapar do frio da televisão.
Quem conhece o menino avestruz sabe bem das suas poucas qualidades, entre as quais destaca-se a capacidade de não voar, a de não ser belo e a de comer tudo, daí o nome de avestruz. Outro dia mesmo, vi o menino avestruz comendo um resto de cachorro quente que estava na sarjeta há uns dias, talvez semanas. Teve outra feita que presenciei o menino avestruz roubando o elastiquinho do cabelo da menina e engoliu como se fosse uma lula a dore dos capilares tão oleosos da sua vítima.
Contaram histórias fantásticas ao pequeno menino avestruz, o menino que tem no seu nome a capacidade de enterrar a cuca e cegar os problemas. Disseram que há 2.000 anos atrás uma quadrilha de ladrões que roubava drogas, armas e eletrodomésticos, com medo de ser pega no flagrante, descarregou tudo numa casinha de um homem simples que viva com sua mulher também simples. Eles tinham acabado de ganhar uma boca extra na casa, a mulher simples tinha parido um naquela noite. Noite ainda sem renas, nem neve, nem trenó, pois a televisão ainda não existia por ali. Foi numa noite como todas as noites. Uma noite em que a família simples interceptou carga roubada, mas consideraram presente; afinal, a quadrilha era do mesmo morro e todos se conheciam muito bem há 2.000 anos atrás.
Muito tocado por esta anedota, o menino avestruz, que enterrava a cabeça para não ver, mas deixava o corpo para apanhar, sempre ficava de braços para o alto enquanto dormia. Desde que ouviu o conto ele dormia meio torto. Noite após noite queria nascer de novo para receber a carga roubada, sem prestações, sem reclame, sem caixas e sem cadastro em lojas. O menino avestruz, que era um saco sem fundo, prometeu para si mesmo que, se viesse a receber tantos presentes dos reis do tráfico, não iria come-los. Iria deixar lá, só para decorar e falar que são dele agora.
Ai, o menino avestruz, que não vê o mundo, pois enterra a cabeça quando atiçado, seria feliz. Feliz porque aconteceu com ele o que só acontecia nas histórias faladas, nas histórias que mudam de boca em boca e, mesmo tentando ser iguais, chegam diferentes para os ouvidos dos meninos como o menino avestruz.
Quem conhece o menino avestruz sabe bem das suas poucas qualidades, entre as quais destaca-se a capacidade de não voar, a de não ser belo e a de comer tudo, daí o nome de avestruz. Outro dia mesmo, vi o menino avestruz comendo um resto de cachorro quente que estava na sarjeta há uns dias, talvez semanas. Teve outra feita que presenciei o menino avestruz roubando o elastiquinho do cabelo da menina e engoliu como se fosse uma lula a dore dos capilares tão oleosos da sua vítima.
Contaram histórias fantásticas ao pequeno menino avestruz, o menino que tem no seu nome a capacidade de enterrar a cuca e cegar os problemas. Disseram que há 2.000 anos atrás uma quadrilha de ladrões que roubava drogas, armas e eletrodomésticos, com medo de ser pega no flagrante, descarregou tudo numa casinha de um homem simples que viva com sua mulher também simples. Eles tinham acabado de ganhar uma boca extra na casa, a mulher simples tinha parido um naquela noite. Noite ainda sem renas, nem neve, nem trenó, pois a televisão ainda não existia por ali. Foi numa noite como todas as noites. Uma noite em que a família simples interceptou carga roubada, mas consideraram presente; afinal, a quadrilha era do mesmo morro e todos se conheciam muito bem há 2.000 anos atrás.
Muito tocado por esta anedota, o menino avestruz, que enterrava a cabeça para não ver, mas deixava o corpo para apanhar, sempre ficava de braços para o alto enquanto dormia. Desde que ouviu o conto ele dormia meio torto. Noite após noite queria nascer de novo para receber a carga roubada, sem prestações, sem reclame, sem caixas e sem cadastro em lojas. O menino avestruz, que era um saco sem fundo, prometeu para si mesmo que, se viesse a receber tantos presentes dos reis do tráfico, não iria come-los. Iria deixar lá, só para decorar e falar que são dele agora.
Ai, o menino avestruz, que não vê o mundo, pois enterra a cabeça quando atiçado, seria feliz. Feliz porque aconteceu com ele o que só acontecia nas histórias faladas, nas histórias que mudam de boca em boca e, mesmo tentando ser iguais, chegam diferentes para os ouvidos dos meninos como o menino avestruz.
terça-feira, 27 de novembro de 2007
Esperando pelo homem
Chego lá para esperar pelo homem. Ele disse que vinha. Eu sei que ele vem e, enquanto não vem, fico esperando ele chegar. Vou e pego uns livros, revistas e artigos para folhar, ver e ler nas entrelinhas – só para ficar sabendo o mais raso de cada assunto, só para falar que sei o que não sei, mas tenho propriedade. Falo bem e não cito referência nem fonte, falo bem para falar como se a origem fosse eu.
O homem não chegou ainda, marquei para as 20h, já são 20 e 30. Normalmente ele dá uma atrasada, charme puro, catimba. O homem é boleiro, gosta de uma cera, é chegado a um confete quando está com a bola toda. Só que até agora ele não tem pelota nenhuma de vantagem. Espero o homem que não chega e me é igual, só que não chegou ainda, começo a pensar em sair dali e dar ao homem o que ele não merece, um cano.
Só não merece um furo, pois eu já fui o homem que nunca chegou, já deitei e rolei no gramado para ganhar tempo, para comer bola. De propósito já lhe fiz mal. Na cara dura já atrasei meia hora, uma hora, duas horas. Só falo que eu sempre fui: atrasado sim, ausente nunca.
Chego ao final da primeira leva de revistas, das gringas e das boas, só que antigas dem
ais. Cara de anos 90, assim já manjo tudo. Já vivi os anos noventa, eu me lembro muito bem. As revistas velhas tinham o problema de não terem sua continuidade atual, a safra que peguei ia de 93 a 99, se fosse vinho ou whisk, ok; mas era revista – e revista, assim como mulher, anos 90 não dá. Ainda não dá, talvez. Quem sabe nos anos 2010 tudo dê; as revistas por serem vintage e as mulheres por serem semi-deusas recém saídas do forno da adolescência.
A hora dobra para as 21h e o homem nem deu sinal ainda. Não resisto e ligo, uma vez. Sem resposta. Ligar para o atrasado pode ser perigoso, pois o atraso pode ter um motivo, uma causa nobre que não vale uma ligação suja do colega que não soube ser amigo e esperar com paciência – adjetivo que não me tomava na plenitude naquela hora.
Chego aos anuários. Benditos fólios de curadoria gringa também. Estes mais bicudos, mais gordos e inspiradores. Anuários são a droga do eclético, a regra de três do preguiçoso. Mesmo assim são recheados de coisas vermes, como se diz no Norte.
Anuário delícia me sugou por minutos preciosos. Devorei não um, mas dois do mesmo jeito que a raposa rasga e se empanturra do cordeirinho mirrado. Quero sobremesa, tenho fome. Mata o homem e come, diria a coroa. O homem não chegou, pego um copo d’água para disfarçar a fome e voltar ao resto de revistas. Vem a publicação de moda, moderninha, metida e enfadonha. Quase 500 páginas de futilidades típicas de quem é de Nova York. Senti falta da raça do anuário, por um momento, cheguei a pensar em pegar mais revistas dos anos 90.
Assim como um anúncio, ouço o descer de escadas de alguém. Poderia ser o homem? Seu passo já me é conhecido, seu balançar de pernas não me engana. O som começa a ficar mais próximo, juro que ele está chegando. Faço meia careta, meia cara de alívio. Ele, enfim, veio para me ajudar. Não era o homem. Guinou a passada no andar de cima, ironizando meu faro auditivo.
O homem ainda não veio, acabou a leitura, começo a me preocupar. Digo chega e ligo de novo, nada. Agora ele só pode estar querendo uma comigo. Armo o castigo, vou para o boteco, vou enrolar e chegar atrasado com sorriso cevado, cara lavada. Vou dar um chapéu no homem que ele vai ver só. É isso mesmo, minha vez de enrolar.
Já logo na saída, sem mais e sem menos lá ele está. O homem. O homem que me enrolou, sorrindo todo prosa como se estivesse me fazendo de fantoche. Acabei de chegar, disse e me cumprimentou. Não disse nada, não consegui expressar minha raiva, meu plano se frustrou, a minha espera só funcionou porque resolvi esquecer de esperar e lá veio ele, estragando tudo. Cheio de nove horas ele ainda me perguntou se eu estava indo embora, eu disse: não, tava só esperando pelo homem.
O homem não chegou ainda, marquei para as 20h, já são 20 e 30. Normalmente ele dá uma atrasada, charme puro, catimba. O homem é boleiro, gosta de uma cera, é chegado a um confete quando está com a bola toda. Só que até agora ele não tem pelota nenhuma de vantagem. Espero o homem que não chega e me é igual, só que não chegou ainda, começo a pensar em sair dali e dar ao homem o que ele não merece, um cano.
Só não merece um furo, pois eu já fui o homem que nunca chegou, já deitei e rolei no gramado para ganhar tempo, para comer bola. De propósito já lhe fiz mal. Na cara dura já atrasei meia hora, uma hora, duas horas. Só falo que eu sempre fui: atrasado sim, ausente nunca.
Chego ao final da primeira leva de revistas, das gringas e das boas, só que antigas dem
ais. Cara de anos 90, assim já manjo tudo. Já vivi os anos noventa, eu me lembro muito bem. As revistas velhas tinham o problema de não terem sua continuidade atual, a safra que peguei ia de 93 a 99, se fosse vinho ou whisk, ok; mas era revista – e revista, assim como mulher, anos 90 não dá. Ainda não dá, talvez. Quem sabe nos anos 2010 tudo dê; as revistas por serem vintage e as mulheres por serem semi-deusas recém saídas do forno da adolescência.
A hora dobra para as 21h e o homem nem deu sinal ainda. Não resisto e ligo, uma vez. Sem resposta. Ligar para o atrasado pode ser perigoso, pois o atraso pode ter um motivo, uma causa nobre que não vale uma ligação suja do colega que não soube ser amigo e esperar com paciência – adjetivo que não me tomava na plenitude naquela hora.
Chego aos anuários. Benditos fólios de curadoria gringa também. Estes mais bicudos, mais gordos e inspiradores. Anuários são a droga do eclético, a regra de três do preguiçoso. Mesmo assim são recheados de coisas vermes, como se diz no Norte.
Anuário delícia me sugou por minutos preciosos. Devorei não um, mas dois do mesmo jeito que a raposa rasga e se empanturra do cordeirinho mirrado. Quero sobremesa, tenho fome. Mata o homem e come, diria a coroa. O homem não chegou, pego um copo d’água para disfarçar a fome e voltar ao resto de revistas. Vem a publicação de moda, moderninha, metida e enfadonha. Quase 500 páginas de futilidades típicas de quem é de Nova York. Senti falta da raça do anuário, por um momento, cheguei a pensar em pegar mais revistas dos anos 90.
Assim como um anúncio, ouço o descer de escadas de alguém. Poderia ser o homem? Seu passo já me é conhecido, seu balançar de pernas não me engana. O som começa a ficar mais próximo, juro que ele está chegando. Faço meia careta, meia cara de alívio. Ele, enfim, veio para me ajudar. Não era o homem. Guinou a passada no andar de cima, ironizando meu faro auditivo.
O homem ainda não veio, acabou a leitura, começo a me preocupar. Digo chega e ligo de novo, nada. Agora ele só pode estar querendo uma comigo. Armo o castigo, vou para o boteco, vou enrolar e chegar atrasado com sorriso cevado, cara lavada. Vou dar um chapéu no homem que ele vai ver só. É isso mesmo, minha vez de enrolar.
Já logo na saída, sem mais e sem menos lá ele está. O homem. O homem que me enrolou, sorrindo todo prosa como se estivesse me fazendo de fantoche. Acabei de chegar, disse e me cumprimentou. Não disse nada, não consegui expressar minha raiva, meu plano se frustrou, a minha espera só funcionou porque resolvi esquecer de esperar e lá veio ele, estragando tudo. Cheio de nove horas ele ainda me perguntou se eu estava indo embora, eu disse: não, tava só esperando pelo homem.
quarta-feira, 14 de novembro de 2007
Como planejei minha vida.
Nunca entrei na modinha dos blogs, mas não deu para resistir ao ver a minha amiga Mari respondendo um questionário arriscado para uma big agência. Eu também gosto de agências imponentes e fibrosas. Adoraria integrar agências inteligentes e capazes. Agências ferozes, que dominam o reino animal da publicidade (a profissão mais afeiçoada às cobras que as lebres). No caso, a agência, trata-se da J.W.T., um leopardo das savanas rasteiras, que não tem medo de búfalo nem de rinoceronte e devora uma gazela como uma criança destrói um frutili.
A sigla JWT assusta quem conhece e quem não conhece a arte da propaganda. Falei com minha mãe, que é professora: Filho! Que bom, você vai entrar numa farmacêutica, não é? Não mãe. Ah! Então é uma daquelas empresas que vendem aço e ganham bilhões por ano, compram umas as outras e exploram milhões de pobres em paises como Bangladesh. Que bom, você vai ser rico. Antes fosse mamuxa, é uma agência de publicidade, só que uma das grandes; sabe como é que é, quando a coisa é grande é melhor do que quando é pequena, pense em televisão, quarto de hotel e brinde de promoção, maior melhor. Ela teve que concordar agência grande, sorriso grande.
Com o apoio materno restou apenas eu mover meus dedos fatigados de tanto sambarem pelos teclados do meu computador aqui no escritório – e adivinhe, é uma agência! A Thompson (o T da poderosa tríade) quer saber como eu sou, dessa forma tive duas opções ou me apresento formalmente ou crio um personagem absolutamente fictício, meu seft made sucess case. Dou o start num pseudônimo de sucesso, oposto ao seu gênio terreno, um caractere que trilha para o brilhantismo e para as cadeiras dos Chairs Man – mas não para sentar no colo deles, faça-me o favor.
Para me conhecer, concluí eu após um devaneio junto aos meus botões, eles podem checar esse blog tão trabalhado. Tão fértil. Tão leitoso. Tão santo, tão líquido, tão volátil. Ele já diz muito sobre mim. Assim sobra espaço para que conheçam meu alter ego: João Galante. Um homem de sucesso e virtudes inumeráveis, um homem que toda mãe gostaria de ter como genro, ele e o Rei Roberto. Um homem que move multidões. Um homem que ainda está para baixar no corpo que escreveu essas linhas. Um homem para se ver no futuro, mas, se a vaga é para daqui a um mês, falem com o Santoliquido mesmo, ele dá para o gasto. Ele gosta de novelas, gosta de escrever textos longos, textos que hão de ser compilados e lançados numa edição da Cosac & Naify quando ele se for, textos que ainda vão fazer a diferença. Ele joga futebol também, mas escreve com maestria e não consegue falar dele mesmo na primeira pessoa – eis um sinal de sua modéstia incomparável, da sua incrível diplomacia com o interlocutor.
Mas você, que ainda corre os olhos sobre esse texto, vai se perguntar, não seria Renato um criativo perdido na vida, um errante virtual? Não seria Renato um demente para o planejamento, uma pessoa assaz irresponsável para a visão holística de problemas, um menino fanfarrão, um pequeno burguês, que nada quer com a vida e não preza pelo seu destino? Qual será a sina de Renato? O limbo, o não-destino, o ponto neutro, a estação do vazio ou o metro Vila Madalena? Onde ele vai? Onde ele quer chegar com isso?
Planejar, para Renato, ó leitor tão especulante, é trabalho antes de tudo. Seu pai marcou bem isso, disse: Filho, quando te criei, eu acordei com o pé inchado e tive que começar a planejar após essa data. Sabes quantas fraudas eu comprava de antemão nas noites em que comias banana amassada com farinha Láctea? Não papi, quantas? Primeiro foi um par, depois foram dez, após 2 meses descobri que apenas 6 eram necessárias, elaborei cronogramas, fiz planilhas a mão e colocava o despertador para 5 minutos antes do seu já tão choroso e irritante berrar borrado no meio da madrugada, 6 vezes por noite. Uau, papai, então eu devia ser bem chato. É filho, você era, você nem começou a andar e já me amolavas, porém eu planejei e tive seu irmão, este foi planejado, este Será direito, um bom. Este eu não botei para tocar violino quando completou 3, com este eu não fui ao show do Legião no aniversário de 5. Este vai ser algo na vida, já planejei, será engenheiro, não publicitário, ô profissãozinha menor.
Para meu pai, eu trabalho em um escritório de consultoria de marketing, o prêmio mais nobre para quem faz comunicação social.O pai de Renato não acredita, mas seu filho é um grande planejador. Ele já inventou peripécias diversas e engabelações quase infinitas para furtar o carro da família, já foi capaz de malabarismos mil para descolar aquela grana de final de semana. Você quer alguma justificativa escolar? Quer pleitear notas, faltas, atrasos, multas de carro? Renato consegue. Improviso, malandragem, corrupção? Claro que não! Planejamento.
Cito logo um exemplo: Renato quer morar sozinho e não sabe como, não tem dinheiro nem estadia, elabora um plano de conhecer pessoas que tenham um dos dois, ou relaciona a instabilidade mundial com a sua necessidade de dinheiro iminente para aplicar em títulos arriscadíssimos de uma companhia norueguesa de imóveis. Renato já viu tudo, ledo leitor, ele já se posicionou antes das grandes. Baseando-se no superaquecimento terrestre e nas guerras que pipocam dia a dia como espinhas em adolescente, ele sabe que, mais dia menos dia o gelo derrete e tudo ficará uns 5 graus mais quente, o inverno vai para o saco e o verão eleva-se ao quadrado. Quem mora em praias, resorts, paraísos fiscais e outros territórios de baixa altitude terão que mexer suas bundas e ir morar em outros lugares. Como a economia mundial vai naufragar com isso, Renato pensou (planejou) comprar ações de um país de estabilidade sólida como o gelo, dura como a rocha – a Noruega, um lugar com altas tendências de não perder nada com o degelo. As altas altitudes e a população litorânea em 2% farão da Noruega uma nova China nos anos próximos. Renato acertará e terá uma casa bem grande, com direito a ar condicionado turbinado e piscina com churrasqueira para as tardes de outono.
Assim, concluo esse relato. Um case de sucesso, um elogio ao brilhantismo. Você, que leu e prestou atenção em tudo, vai ver que Renato é um candidato forte. Um ser com planejamento na veia e que, mesmo entrando atrasado, vai ganhar essa corrida, que faz parte do decátlon da vida humana, onde só os fortes prevalecem e podem ter seus textos publicados pela Cosac depois de mortos. Ele chega lá.
A sigla JWT assusta quem conhece e quem não conhece a arte da propaganda. Falei com minha mãe, que é professora: Filho! Que bom, você vai entrar numa farmacêutica, não é? Não mãe. Ah! Então é uma daquelas empresas que vendem aço e ganham bilhões por ano, compram umas as outras e exploram milhões de pobres em paises como Bangladesh. Que bom, você vai ser rico. Antes fosse mamuxa, é uma agência de publicidade, só que uma das grandes; sabe como é que é, quando a coisa é grande é melhor do que quando é pequena, pense em televisão, quarto de hotel e brinde de promoção, maior melhor. Ela teve que concordar agência grande, sorriso grande.
Com o apoio materno restou apenas eu mover meus dedos fatigados de tanto sambarem pelos teclados do meu computador aqui no escritório – e adivinhe, é uma agência! A Thompson (o T da poderosa tríade) quer saber como eu sou, dessa forma tive duas opções ou me apresento formalmente ou crio um personagem absolutamente fictício, meu seft made sucess case. Dou o start num pseudônimo de sucesso, oposto ao seu gênio terreno, um caractere que trilha para o brilhantismo e para as cadeiras dos Chairs Man – mas não para sentar no colo deles, faça-me o favor.
Para me conhecer, concluí eu após um devaneio junto aos meus botões, eles podem checar esse blog tão trabalhado. Tão fértil. Tão leitoso. Tão santo, tão líquido, tão volátil. Ele já diz muito sobre mim. Assim sobra espaço para que conheçam meu alter ego: João Galante. Um homem de sucesso e virtudes inumeráveis, um homem que toda mãe gostaria de ter como genro, ele e o Rei Roberto. Um homem que move multidões. Um homem que ainda está para baixar no corpo que escreveu essas linhas. Um homem para se ver no futuro, mas, se a vaga é para daqui a um mês, falem com o Santoliquido mesmo, ele dá para o gasto. Ele gosta de novelas, gosta de escrever textos longos, textos que hão de ser compilados e lançados numa edição da Cosac & Naify quando ele se for, textos que ainda vão fazer a diferença. Ele joga futebol também, mas escreve com maestria e não consegue falar dele mesmo na primeira pessoa – eis um sinal de sua modéstia incomparável, da sua incrível diplomacia com o interlocutor.
Mas você, que ainda corre os olhos sobre esse texto, vai se perguntar, não seria Renato um criativo perdido na vida, um errante virtual? Não seria Renato um demente para o planejamento, uma pessoa assaz irresponsável para a visão holística de problemas, um menino fanfarrão, um pequeno burguês, que nada quer com a vida e não preza pelo seu destino? Qual será a sina de Renato? O limbo, o não-destino, o ponto neutro, a estação do vazio ou o metro Vila Madalena? Onde ele vai? Onde ele quer chegar com isso?
Planejar, para Renato, ó leitor tão especulante, é trabalho antes de tudo. Seu pai marcou bem isso, disse: Filho, quando te criei, eu acordei com o pé inchado e tive que começar a planejar após essa data. Sabes quantas fraudas eu comprava de antemão nas noites em que comias banana amassada com farinha Láctea? Não papi, quantas? Primeiro foi um par, depois foram dez, após 2 meses descobri que apenas 6 eram necessárias, elaborei cronogramas, fiz planilhas a mão e colocava o despertador para 5 minutos antes do seu já tão choroso e irritante berrar borrado no meio da madrugada, 6 vezes por noite. Uau, papai, então eu devia ser bem chato. É filho, você era, você nem começou a andar e já me amolavas, porém eu planejei e tive seu irmão, este foi planejado, este Será direito, um bom. Este eu não botei para tocar violino quando completou 3, com este eu não fui ao show do Legião no aniversário de 5. Este vai ser algo na vida, já planejei, será engenheiro, não publicitário, ô profissãozinha menor.
Para meu pai, eu trabalho em um escritório de consultoria de marketing, o prêmio mais nobre para quem faz comunicação social.O pai de Renato não acredita, mas seu filho é um grande planejador. Ele já inventou peripécias diversas e engabelações quase infinitas para furtar o carro da família, já foi capaz de malabarismos mil para descolar aquela grana de final de semana. Você quer alguma justificativa escolar? Quer pleitear notas, faltas, atrasos, multas de carro? Renato consegue. Improviso, malandragem, corrupção? Claro que não! Planejamento.
Cito logo um exemplo: Renato quer morar sozinho e não sabe como, não tem dinheiro nem estadia, elabora um plano de conhecer pessoas que tenham um dos dois, ou relaciona a instabilidade mundial com a sua necessidade de dinheiro iminente para aplicar em títulos arriscadíssimos de uma companhia norueguesa de imóveis. Renato já viu tudo, ledo leitor, ele já se posicionou antes das grandes. Baseando-se no superaquecimento terrestre e nas guerras que pipocam dia a dia como espinhas em adolescente, ele sabe que, mais dia menos dia o gelo derrete e tudo ficará uns 5 graus mais quente, o inverno vai para o saco e o verão eleva-se ao quadrado. Quem mora em praias, resorts, paraísos fiscais e outros territórios de baixa altitude terão que mexer suas bundas e ir morar em outros lugares. Como a economia mundial vai naufragar com isso, Renato pensou (planejou) comprar ações de um país de estabilidade sólida como o gelo, dura como a rocha – a Noruega, um lugar com altas tendências de não perder nada com o degelo. As altas altitudes e a população litorânea em 2% farão da Noruega uma nova China nos anos próximos. Renato acertará e terá uma casa bem grande, com direito a ar condicionado turbinado e piscina com churrasqueira para as tardes de outono.
Assim, concluo esse relato. Um case de sucesso, um elogio ao brilhantismo. Você, que leu e prestou atenção em tudo, vai ver que Renato é um candidato forte. Um ser com planejamento na veia e que, mesmo entrando atrasado, vai ganhar essa corrida, que faz parte do decátlon da vida humana, onde só os fortes prevalecem e podem ter seus textos publicados pela Cosac depois de mortos. Ele chega lá.
sexta-feira, 2 de novembro de 2007
O Gato e o Nada
Havia, há muito tempo, um gato que não tinha amigos. Também não tinha inimigos, nem pulgas. Não recebia carinho, nem era xingado. Nenhum cão jamais latiu para ele; o gato nunca correu atrás de um rato, tampouco afugentou uma pomba.
Nunca tomou leite, nem se lambeu. Nunca morou no telhado, nem comeu todas as gatinhas. Bigode – ao menos – ele tinha.
Tinha também pelos negros e olhos esquivos e verdes. Suas garras eram finas e compridas. Não aprendeu a miar, não sabe eriçar os pelos e não faz sua higiene numa caixa de areia.
Certa feita o gato estava rodando seu habitat, uma casa – vazia. Uma casa sem mobília e só paredes, nem portas a casa tinha. Da pintura pouco sobrara, o telhado estava rachado e as infiltrações encobriam o cheiro de capim do jardim. Muito mofo e vazio. A escada estava rompida no meio do caminho, o mofo a fez desmoronar; bastou o gato atingir o terceiro e último degrau para receber uma bola de ferro da demolidora – enfim ele ganhou alguma coisa.
Nunca tomou leite, nem se lambeu. Nunca morou no telhado, nem comeu todas as gatinhas. Bigode – ao menos – ele tinha.
Tinha também pelos negros e olhos esquivos e verdes. Suas garras eram finas e compridas. Não aprendeu a miar, não sabe eriçar os pelos e não faz sua higiene numa caixa de areia.
Certa feita o gato estava rodando seu habitat, uma casa – vazia. Uma casa sem mobília e só paredes, nem portas a casa tinha. Da pintura pouco sobrara, o telhado estava rachado e as infiltrações encobriam o cheiro de capim do jardim. Muito mofo e vazio. A escada estava rompida no meio do caminho, o mofo a fez desmoronar; bastou o gato atingir o terceiro e último degrau para receber uma bola de ferro da demolidora – enfim ele ganhou alguma coisa.
segunda-feira, 29 de outubro de 2007
Drible da vaca
Drible da vaca é assim: bola de um lado, zagueiro cara de boi no meio, e atacante voador do outro. Tocou, passou; quem resolveu ficar olhando viu navios.
De Brasil esse drible tem parentesco adotivo. Sábios são os corajosos toureiros espanhóis que trocam a bola pelo pano e o vôo pela altivez de ver o boi chifrudo passar lotado, rumo ao delírio da platéia.
Zagueiro que zanga, faz falta. Dá empurrão, deixa a perna. Toma amarelo e fica tudo em casa. Se bobear de cair na área, o drible fica mais salgado para o cara de boi engolir, olé!
Agora vá me cair numa das zanganças do chifrudo! Esse aí não perdoa e finca ódio. Toureiro toureado fica pior que zagueiro vazado, a estrela perde o brio e o boi chifrudo saí vencedor sem vencer, fica querido sem querer. Na tourada, o touro bate penalti.
*
Menina, se pensas que és muralha, um drible da vaca lhe dou. Sou flecha de ventos, minhas pernas são de grilo e meu corpo baila suave como o peixe.
Chifrudo, se queres meu fim, que venha com graça, pois se pensas em atropelar razão e sentimento vai ser pano na cabeça. De esquina te saco, na reta ataco. Finda sua corrida, minha calçada da fama.
Cara de boi morto, cara de vaca chifruda. Sou vaqueiro, sou toureiro. Sou atacante brasileiro.
segunda-feira, 22 de outubro de 2007
A pior parte de mim
Modéstia e banhas a parte, tenho apenas um defeito incorrigível. Uma parte de mim é torta aos meus olhos. Feia mesmo, um desastre. Coisa mais grave é quando eu comecei a achar isso uma coisa errada – mesmo nos outros. Costumo condenar os pés de amigos e desconhecidos. Eu mal consigo conviver com o meu.
De todos os desvios de caráter, canastrice ou má formação educativa que eu possa ter, nada se compara ao fado de ter um pé tão feio, tão incorrigível. Meu pé é minha janela para o inferno. Falo isso, pois mudo com o tempo. Um dia, quem sabe, possa eu me tornar uma pessoa mais doce, verdadeira. Um dia eu hei de ser meigo, mas meu pé não! Meu pé tende a ser cada vez mais feio. É a ciência natural dessas coisas; quando você ainda engatinha, seus pés são macios, um travesseirinho; é só começar a calçar chuteiras e os pés ficam deformados, as unhas crescem anamorficamente. Tudo vai para o vinagre. Você já viu um pé de velho? É a coisa mais feia do mundo. Não tem solução, o que a idade acrescenta em virtudes e experiência, ela mazela nos pés, orelhas e nariz.
Não consigo ver beneficio amoroso nenhum naqueles que por vício, tara, paixão ou doença, tem o prazer de beijar, lamber, acariciar os pés da pessoa amada. Isso é um ato nefasto, para não dizer jocoso. É um nojo só venerar a parte mais castigada do nosso corpo. O pé passa o dia dentro de meias e/ou sapatos; ele tem como função sustentar o nosso corpo, dar equilíbrio e suportar as topadas mais imbecis. O pé é, antes de tudo, um forte.
A carapuça pedóloga, sua derme e epiderme são imperfeitas. Acho que Deus encarregou seu estagiário de projetar os pés de Adão e Eva. Em suma, o pé é um rascunho da mão, cuja adaptação aos membros inferiores teve que chapar sua palma e encolher os dedos para que estes se parecessem mais com pequenos modelos de pães – dedão é um pão de queijo, os 3 do meio são pães franceses e o dedinho é um elogio a baguete.
Ó parte absurda de mim! Como és feio, como és perpétuo! Meu pé me assusta. O pé dos outros me dá medo. Um medo que se esconde em razão de ambientes e temperatura. O pé é o sinônimo da imperfeição da estirpe humana. O pé é o começo do fim, a raiz dos males terrenos.
De todos os desvios de caráter, canastrice ou má formação educativa que eu possa ter, nada se compara ao fado de ter um pé tão feio, tão incorrigível. Meu pé é minha janela para o inferno. Falo isso, pois mudo com o tempo. Um dia, quem sabe, possa eu me tornar uma pessoa mais doce, verdadeira. Um dia eu hei de ser meigo, mas meu pé não! Meu pé tende a ser cada vez mais feio. É a ciência natural dessas coisas; quando você ainda engatinha, seus pés são macios, um travesseirinho; é só começar a calçar chuteiras e os pés ficam deformados, as unhas crescem anamorficamente. Tudo vai para o vinagre. Você já viu um pé de velho? É a coisa mais feia do mundo. Não tem solução, o que a idade acrescenta em virtudes e experiência, ela mazela nos pés, orelhas e nariz.
Não consigo ver beneficio amoroso nenhum naqueles que por vício, tara, paixão ou doença, tem o prazer de beijar, lamber, acariciar os pés da pessoa amada. Isso é um ato nefasto, para não dizer jocoso. É um nojo só venerar a parte mais castigada do nosso corpo. O pé passa o dia dentro de meias e/ou sapatos; ele tem como função sustentar o nosso corpo, dar equilíbrio e suportar as topadas mais imbecis. O pé é, antes de tudo, um forte.
A carapuça pedóloga, sua derme e epiderme são imperfeitas. Acho que Deus encarregou seu estagiário de projetar os pés de Adão e Eva. Em suma, o pé é um rascunho da mão, cuja adaptação aos membros inferiores teve que chapar sua palma e encolher os dedos para que estes se parecessem mais com pequenos modelos de pães – dedão é um pão de queijo, os 3 do meio são pães franceses e o dedinho é um elogio a baguete.
Ó parte absurda de mim! Como és feio, como és perpétuo! Meu pé me assusta. O pé dos outros me dá medo. Um medo que se esconde em razão de ambientes e temperatura. O pé é o sinônimo da imperfeição da estirpe humana. O pé é o começo do fim, a raiz dos males terrenos.
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