quinta-feira, 8 de maio de 2008

Como se faz Renato




em algumas questões bem planejadas pela W/Brasil, Santoliquido fala sobre Renato assim como Edson fala do Pelé.

Para me conhecer, concluí eu após um devaneio junto aos meus botões, que não tenho outra opção a não ser falar sobre ele, meu alter ego: João Galante. Um homem de sucesso e virtudes inumeráveis, um homem que toda mãe gostaria de ter como genro, ele e o Rei Roberto. Um homem que move multidões. Um homem que ainda está para baixar no corpo que escreveu essas linhas. Um homem para se ver no futuro, mas, se a vaga é para daqui a 6 meses, falem com o Renato mesmo, ele dá para o gasto.

Ele gosta de novelas, gosta de escrever textos longos, textos que hão de ser compilados e lançados numa edição da Cosac & Naify quando ele partir, textos que ainda vão fazer a diferença. Ele planeja também. Ele joga futebol, mas escreve com maestria e não consegue falar dele mesmo na primeira pessoa – eis um sinal de sua modéstia incomparável, da sua incrível diplomacia com o interlocutor.

Um garoto de classe média, nascido e criado nos morros da Vila Madalena, acostumado a muita mistura e carros buzinando de madrugada. Para fugir um pouco de um dos epicentros da noite paulista, Renato aprendeu a apreciar a sétima arte. Não há lembranças de quando, mas ele jamais esqueceu do filme Fellini 8 e ¹/². A fita já foi vista e revista umas dezenas de vezes a ponto do nosso herói memorizar falas, músicas e entradas dos personagens. O amor louco pela obra prima se dá no contato sempre representado entre o onírico e o real, entre o fantasioso e o agonizante não só dentro do cinema, mas também no que tange á procura do insight – palavra tão em voga atualmente.

O cinema fascinou e encantou o candidato. Chegou a ir diversas vezes sozinho à sala escura, já foi capaz de assistir o mesmo filme por duas vezes seguidas. Não estranha indagar sobre a falta de sociabilidade do garoto. Mentira. Engana-se quem acha que nosso garoto é um introvertido e autista; muito pelo contrário, a amizade e o carinho de terceiros, para ele, é o lhe dá orgulho e satisfação nessa vida. A amizade e seus bons momentos são inesquecíveis. Agora se você quer saber o que excita, além disso, pode-se citar o fato de conseguir diversas coisas através do trabalho e do empenho pessoal. Ora em terras brasileiras – quando comprou seu skate com um dos primeiros salários -, ora em terras austrais – ao patrocinar suas viagens com trabalho suado dentro da cozinha -, Renato honra sua independência com responsabilidade.

Impossível, porém, não narrar a maior conquista da sua vida: fazer televisão. Na ESPM, ele teve a oportunidade e viveu, aprendeu e cresceu junto a uma equipe de igual qualificação. Momentos ímpares e eternos. Organizar, planejar, criar e encantar foi possível pela primeira vez para o garoto. Inesquecível.

Já que passamos pela Superior de Propaganda e Marketing, motivos não faltaram para que Renato desviasse (abandonasse) sua primeira opção de formação, administração, e partisse com tudo para a propaganda. Todos nós, agora maduros, podemos considerar uma idéia meio desmedida e insensata, mas alguma coisa lá dentro falou mais alto. Essa coisa não pode ser materializada e o pai de Renato quase deserdou o rapaz por isso. O garoto achava que para ser propaganda, tinha que ser genial. Fazer propaganda e, principalmente, se comunicar com públicos diferentes em ocasiões e formatos mutantes encanta aqueles que sempre se sentiram dispostos a mudar o mundo de alguma forma.

Alucinado por televisão e cultura popular, o candidato se encantou com o comercial da Revista Época, A Semana, criado por vocês aí da W/Brasil. Brilhante, o filme prende a atenção e é objetivo, sua produção ajuda com uma trilha suave e imagens bem escolhidas. Lançar uma revista semanal completa num país onde só se fala em Veja era uma tarefa difícil e, na época (sic), a Época garantiu seu espaço dentro da cabeça do consumidor.

O encanto pelo jornalismo e a informação precisa são algumas qualidades raras. Renato gosta muito desses assuntos, não por acaso, lê jornal de manhã ao lado do pai há uns 8 anos e devora livros quase que semanalmente. Uma vez lido Cem Anos de Solidão (de cabo a rabo em 3 dias de idéia fixa), lagrimas correram seu rosto. Talvez o livro mais emocionante. Contudo, em matéria de livro completo, não há outro que não Crime e Castigo, talvez Ulisses ou Em Busca do Tempo Perdido – esses dois últimos almejados e nunca lidos. Dostoievski dilacera um romance seco e profundo. Chega-se a ter calafrios por se habituar ao clima gélido de S. Peterburgo, de tão bem descrito. Impossível não se identificar com os dramas apresentados.

Livro na estante, liga-se a Tv, o computador, o iPod e perdemos o foco novamente. A velocidade e as prateleiras de cauda longa dos dias de hoje mexeram com a geração nascida nos anos 80. Música, por exemplo, corre pelos ouvidos do nosso mancebo como os motoboys do transito paulista. Garimpeiro assíduo e amante de música eletrônica, clássica, rock ‘n roll, soul e hip hop, Renato recusa o rótulo de eclético – apesar de saber de tudo um pouco, como manda a cartilha publicitária. Ritmos novos, combinações, bandas de 15 minutos de fama; surfa-se nessa onda e, para o prospect de planejamento, o melhor Cd atual é Sound of Silver, do LCD Soudsystem. A banda de New York fez um álbum irresistível em 2007, ouvir uma faixa significa escutar o cd todo. Impossível não dançar. Bom para o pessoal do rock, da new rave, do eletrônico e da pista no geral.

Estranho é falar de um Cd sem nunca possui-lo. Renato não tem o produto físico. Ver televisão é um pouco estranho, com vídeos pipocando em todos os cantos. O garoto não é fã de séries americanas – talvez somente The Office o agrade -, seu programa de Tv favorito é o Manhattan Connection, da GNT. Para entendermos a escolha é só voltarmos ao ponto onde Renato é descrito como uma pessoa atenta e atualizada. O programa de discussão passa pela cepa da política e economia mundial, sem esquecer da cultura. O horário ajuda bastante, afinal de domingo à noite a chance de estar em casa é alta. Novelas? Sim, por favor, mas no momento não há tempo para apreciar da dramaturgia brasileira do jeito que a mesma merece.

Fazer faculdade, trabalhar e preparar um trabalho anual consome muito de Renato. Nosso pobre diabo não pensa em outra coisa que não se formar, com um bom emprego, alguns méritos e muitos amigos. De qualquer forma, trabalhar é preciso, é para isso que ele se dispôs a escrever esse texto que, de lascivo e prolixo, trata-se de uma análise da marca Renato, um breve histórico com algumas firulas.

Uma hora temos que ser profissionais, irmos direto ao ponto. O que motiva o planejamento em Renato são as possibilidades de com estratégia e criatividade desenhar caminhos interessantes. O famoso insight salvador de marcas e campanhas vem do planejamento. Há sim um interesse pela criação. Há sim um interesse pela produção e execução tática. Porém, ainda em fase de aprendizado e com garra e cabeça aberta nosso herói presta mesmo para planejar.

Leviano seria ele se batesse na porta alheia sem motivos para entrar (e ficar) na casa. Renato gosta da W/ e acha o platel de clientes pra lá de delicioso para se trabalhar. Lido o livro a Toca dos Leões, o candidato gosta de frisar uma passagem onde a agência não queria “ser a maior, mas a melhor”.

Renato não pensa em ser o maior, nem o melhor. Ele quer uma oportunidade para provar que é capaz e dedicado. O programa o interessou, a vaga é ótima e ele entra para ser titular. E a história não pára por aí.


- Imagem da piscina maravilhosa de Bill Viola - nome de craque, arte do reflexo e suas possibilidades. Eeeeesse é fera.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Som sem fim



Melhor música nos últimos 4 minutos: Sunday, Sonic Youth.

De todos os projetos, planos, imersões e fundamentalismos da minha mente, só fiz um: ouvir mais música. Aprender mais sobre ela, aprender com ela. Ouvi de amigos, inmigos, de rebarba na conversa dos outros. Garimpei e fui atrás.

Hoje me considero um adulto, um homem da música? Claro que não. Tudo questão de macromovimentos e microvontades. Seguinte: pegar música ficou mais fácil que pegar trânsito. Só meia dúzia de tecladas e pronto. Pimba! Você tem um som novinho em folha correndo no ouvido.

Modernidades a parte, o lance é fomentar o iPod com a última. Dar comidinha para o bichinho virtual que parece ter espaço infinito e fome do desconhecido. Vai, filho, vai ser indie na vida. Ou pelo menos ouça bem o que os Stones tem a dizer. Quem sabe um pouco de James Brown pode animar essa tarde de sol e sono. Maravilha! Tudo do caralho! Acaba-se com a ansiedade – o será esta cresce ainda mais?

It’s happening!

Meu querido, quer ouvir o top 10 da Estônia, manda bala e ouve. Mija no seu ouvido, vai lá. Acha que tá bonito balançar o fio branco no busum e ainda chegar a toa na mulherada Você ainda não ouviu isso? Como não? Já sou íntimo dessa banda. Os caras tem pegada. Eu também tenho, ta afim ? Pimba! Beija a aliança invisível e corre pro abraço.

Cretinice á parte, o fato é que se não encararmos o lance musical de um jeito diferente, vai ficar estranho. Penso assim: se o seu avô lutava para ouvir uma transmissão do Pixinguinha na radiola do vizinho ou no bar da esquina, ele valorizava muito o tal do samba e, todavia, só tinha isso ou aquilo para ouvir.

Seu pai e mãe se embalavam na american music, nas ondas bossa nova, tropicália, ou beatlemaniaca. Que seja! O vinil era tão cheiroso, tão redondo, tão enorme com pinturas, desenhos e alucinações na capa. O vinil dos lados A e B, do plastiquinho para proteger. O amor deve ter esse cheiro. E, vamos lá, não era fácil assim conservar a vitrola em casa; a bolachona era cara e as grandes gravadoras mandavam.

Agora vai muleque, compra um CD do Molejão pro pai. Na fala do Gugu você ouvia Taí o Disco de Platina do Raça Negra! Quanta alegria, CD vai a rodo. No plástico industrial do Made in Taiwan. No encarte mini cheio de fotos toscas e letras compactadas das canções. Mas ainda sim, tinha o lance físico. O apetrecho do disc man para os modenóides que tentavam ouvir um Radiohead no treme treme do ônibus. Nessa época já dava para um ou outro selo mais descolado lançar esta ou aquela banda – benditos! O que não veio de maravilhas dessa iniciativa?

As grandes quebraram o nariz nessa da distribuição.

Agora veja você, caro colega: ontem cheguei e usurpei mais de 30 anos de Dub jamaicano em segundos. Cadê o cheirinho de amor? Pra onde foi a radiola de padaria?

O lance do desapego físico da música impera. Menos é mais e 30 gigas de música não faz mal a ninguém. O problema é que tudo ficou mais gratuito. Explico, como o entra e sai de sons lubrificou, turbinou e multiplicou o seu repertório você não tem mais aquele envolvimento com cada uma das suas mais de 10 mil tracks da telinha do seu mp3.

Calma lá. Nada impede de você se apaixonar por tudo que nunca ouviste cantar na vida, mas o garimpo intenso pode fazer mal ao lavrador. Este pobre peão da vida pós-moderna acaba perdendo o pé quando a piscina se enche de novas informações. Tem músicas e músicas; coisas realmente boas e coisas bacanas de se ouvir. Mas também tem muito nheco-nheco que dói de tão ruim. Como tudo na vida: mulheres, futebol e cerveja. É só com envolvimento que se descobre o que é bom para tosse – e que se envolva com moderação.

Agora que ouvir música está para a facilidade assim como o Tico Tico para o Fubá, preparem-se para a lavadeira de coringas toscos e bregas, mas também para uma mão de Ases.

Como tudo que cresce assim do nada. A orientação ideal para não se deslumbrar nem ser precoce demais para acabar a corrida antes da largada é fundamental. Vai assim de bobeira, nas beiradas que você vai longe. Vai garoto, mãezinha quer um CD do Axé Blond.

- imagem de Remed, grafite e seres mirabolantes.

segunda-feira, 31 de março de 2008

Pessoas de luz própria




Sempre bom falarmos da vida pós moderna. A vida anunciada todo domingo no Fantástico, a vida daqui há 5 ou 10 anos. Quando chegaremos a morar na Lua, ou o dia em que pagaremos a passagem na catraca do trem bala Sampa-Rio com o celular.

O brilhante futuro nanico da vanguarda japonesa, sempre eles. No Japão é antes, muito antes. Lá todo mundo vive espremido, lá as pessoas vivem em casulos com muito mais luxo que os apês de cemetrosquadrados de muita gente por aqui. No Japão a histeria pop chega a dar medo; os homens suicidas gangsters cabeludos punks, as mulheres neuróticas grupies de Kate Moss e hypes miguxo-radicais. Tudo muda em uma semana.

Rápido mesmo é o vaivém de tudo e todos. Entrou, fatiou, partiu. Chegou, sorriu, saiu. Não é mole acompanhar as manadas de pessoas enclausuradas na piada interna e na azaração entre amigos. O problema é que esse tipo de coisinha sempre aconteceu, o problema é que você ou não sabíamos. A vida com luz própria permite tudo ao mesmo tempo agora, mas abre um flanco da privacidade.

Nada mal que saibam ou venerem o próximo, talvez ele possa estar mais próximo que os implacáveis astros do cinema vintage cheio de estilo ou dos novos bandleaders da última semana, que estouram e viram reis da noite para o dia. Anote o fato: precisa-se cada vez mais de ídolos que emplaquem como no passado, mas como não vemos muitos deles hoje em dia, é só um Zé fazer bonito que já ganha os superpoderes de Jagger ou Bowie – resguardadas a suas proporções de público e renda. É como o jogador que ganha a partida em time ruim, vira Deus logo nos vestiários.

O jogo é o seguinte: os que tem luz são os que absorvem e replicam qualquer coisinha mixa. Só mandar o link, ou como diz o senhor burocracia: Gostei do que você falou, manda um e-mailzinho para eu responder isso mais tarde, vou pensar com calma. Aí não, essa de manda um e-mail é muita estupidez, coisa de quem é mole mesmo e não se esconde em plena luz do monitor para não tomar decisão olho por olho.

Craque mesmo só aquele que no meio da escuridão levanta a aba do laptop e manda bala na informação. Seja no cafezinho chic da Bela Vista, seja na sala stadium do cinema (e porque não?), o traficante da informação tem luz própria pois sabe radiar. Mesmo que venha o mais puro besteirol, ele tem o toque de bola argentino, toco e me voi, e quando você vê já está na cara do gol.

Alucinados e discretos, os alienados do computador tem sua parte na vida pulverizada das modinhas tontas e das coisas engraçadinhas. Cada vez mais comum encontrarmos a raridade que dá em tripudiações e livres adaptações do Mussum pedindo fiado no Bar do Mocó ou da dancinha livre-espontânea-vontade que neguinho inventou no sul do Tocantins.

Aquela coisa, mesmo que você ache bobo vai sorrir, mesmo que tente não ligar vai ser avisado. Vai parar na sua rede social, no churrasco entre amigos ou no boteco pós-jogo. Os caras da luz própria - que encontram gozo sabe-se lá como nessa do garimpo – são as estrelas do céu sem Lua.

- a imagem é de um dos panos do Bispo do Rosário. Vai tentar acompanhar esse aí.

quinta-feira, 13 de março de 2008

Nada em 3 Atos

Buenas povo,

Posto agora um curta que eu fiz há mais ou menos um ano. O projeto era inspirado na obra do Lourenço Mutarelli e ficou bem legal - e comprido, tem uns 20 minutos ao todo.

Esse post faz parte de uma tentativa minha de ilustrar um pouco mais o blog. Se vocês ainda não notaram, só tenho a foto do layout (minha camponesinha). Acho que só agora sinto que imagens e vídeos podem agragar valor ao blog - meus textos prometem continuar lonngos e contra o formato de meia lauda da maioria dos blogs.

Enfim, farei melhorias no espaço fértil no futuro. Fiquem espertos.

Valeu e bom filme.

PS: o curta teve de ser dividido em 3 partes.

PS2: Agradeço ao Beto pela postagem no Youtube.

Parte 1:



Parte 2:



Parte 3:

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Um dia na feira

Alimentos, temperos, rodas, tampas de panela de pressão; nada como um dia na feira para comprar essas coisas tão essenciais a existência humana.

A feira livre é um convite a distração e ao caos urbano. Como é cosmopolita a feira da minha rua: a entrada é dividida entre uma colônia japonesa do pastel e um agregado de ex-trabalhadores bóias frias, que desistiram de cortar cana para vender o caldo da mesma. Nas primeiras barracas vendem-se artigos de manutenção e tunning de carrinhos de feiras – tão solícitos às velhinhas e às domésticas. Os responsáveis por essas barracas são, em grande parte, torneiros mecânicos que perderam o emprego nos anos 80 no ABC e não conseguiram galgar a presidência da república ou nem ao menos chegaram ao sindicato.

Continuando nosso world tour temos as barracas de queijos, estas controladas por uma máfia de descendentes de italianos com direito a sotaque forte da Calábria e muita banha no braço das suas senhoras mães e esposas. Os descontos só são concedidos para quem prove que também remete a pátria da pizza e do spaggeti. Depois, vem a barraca dos temperos e estas, por se tratar de um terreno ainda deverás nebuloso para o cidadão brasileiro, são ocupadas por mulheres viúvas, que coabitam entre gatos e corvos; sim, são bruxas. Só podem ser bruxas ou ex-hippies que, por seqüelas ou crença ferrenha no movimento, ainda não desapegaram-se das vestimentas mambembes e da fala quase semiótica.

Ainda temos as barracas do tão amáveis peixes de feira. Um domínio oriental por excelência. Não me pergunte de onde vem o gelo e como ele se mantém por mais de 6 horas de feira com sol escaldante, nem como os peixes da feira são grandes e, seu estoque, infinito. Agora se o papel jornal é o melhor lugar para se conservar um peixe com mais de 2 metros de envergadura ou como dentro de cada exemplar marinho ainda encontra-se água (ou gelo) de modo à peça ficar mais pesada; a isso eu não tenho resposta.

Chegamos ao prato principal da feira livre: as frutas, os legumes, as verduras; as dúzias, as meia-dúzias, as pechinchas, ao leve-3-pague-2, ao deixa eu dar uma experimentada; por ai vai.

As cores e a gritaria parecem não ter fim. Para onde se olhe, as pessoas querem chamar sua atenção com gritos e gesticulações. Feirantes videntes parecem interpretar pensamentos e, ora já embrulham o produto, ora viram-se para outros fregueses, como se você, em menos de 1 segundo, você já dissesse Não, obrigado; mesmo que o que você tinha em mente era perguntar o preço do quilo, ou onde ficava o banheiro.

O profissional de feira, um tipo experiente, não perde tempo com clientes menores como eu ou você, eles querem as donas de casa com carrinhos volumosos ou velhinhas com bolsas de tamanho semelhante. Jovens, casais, office boys e pessoas em geral, só dão trabalho, pois insistem em pechinchar, em usar e abusar do sotaque paulista. O feirante, meus caros, não é bobo e tira todo mundo de letra, ele deve ter uma cota de vendas imaginária e por isso se não conseguir (ou perceber que não vai) vender nos 5 primeiros segundos de contato, passa a ignorar o mané que ulule na frente da sua barraca.

Outro fato que chama a atenção na organização desse micro espaço é a sua economia peculiar. Não estou falando do mercado de negócios entre empresas – B2B, nem mesmo do comércio formal de empresas com consumidores (seja por lojas próprias ou varejo), tampouco quero me referir ao comércio do mercado irregular, da pirataria.

O comerciante de feira tem uma política econômica que contempla a insana busca por descontos e, em muitos casos, a verborragia e a negociata funciona sim e se leva 4 pagando 2 – inda mais no fim de feira; não por acaso, o consumidor e o feirante, quando em sintonia, saem amigos só faltando um convite para jantar na casa do outro ou de tomar um chopinho numa hora dessas, devemos atentar para afinidades como torcer para o mesmo time da camiseta do feirante alvo, o que pode lhe render muitas vantagens econômicas e informações valiosíssimas, como Não vai na barraca do Anderson não, que tá tudo estragado. A economia do feirante é a de venda por escala, mas é quase impossível, ao gastar mais de R$10 numa barraca, não cair de amores e trocar algumas palavras entusiasmadas com o nosso tão retórico feirante.

O ponto da localização da feira é fundamental para o seu sucesso. Já vi feiras em viadutos, embaixo de pontes, em rotatórias gigantes, em praças, em estacionamentos. Mas verdade seja dita: a feira de rua é um sucesso. Digo a feira que toma de assalto as ruas alheias da nossa cidade. A feira que tomba caixas e caixotes às 4 da manhã. A feira que desperta sutilmente os moradores da rua tomada às 6 com gritos de Olha’o tomate! Olha’o tomate!

Sob um olhar de um biólogo, os feirantes se reúnem tão rapidamente, de forma tão uniforme, que perecem ser urubus atraídos pela carne de um hipopótamo em estado de putrefação ou como formigas se lançam a caça de um bolo de casamento que acidentalmente acabara de cair próximo ao formigueiro.

A questão é que por mais distante um do outro que os feirantes possam morar, eles se reúnem no mesmo local, na mesma hora e, após 10 minutos, dão fim aos seus caminhões. Na certa os escondem em estacionamentos secretos, em cumplicidade aos moradores que margeiam a feira. Como em filmes de ação, os feirantes sabem esconder caminhões, sujeira, armas, escravos bolivianos e cadáveres dos seus inimigos. Se você já viu o filme 60 Segundos, ainda não tem noção de quão dinâmica pode ser o processo de pilhagem e esconderijo de simples feirantes.

Arriscar-se numa feira livre é conhecer o último resquício babilônico na cidade ou um convite para refrescar-se ao tomar um caldo de cana com limão, com gostinho de abacaxi, que pode vir a ser tamarindo.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Além do bem e do mal

Noutro dia lembrei de quando as pessoas mais velhas me fitavam do alto e diziam Aê galerinha do mal. Tapinha nas gostas e afagos na cuca seguiam essas palavras quase que automaticamente. Eu sorria e falava para mim mesmo Eu não sou “do mal”. Nunca me permitia ser ouvido e pensava comigo mesmo, O que é ser do mal?

Aos 10 anos, ser do mal era combater os Cavaleiros do Zodíaco ou ser o chefão final do jogo em que você perde 4 horas queimando seus dedos para alcançar e, em 5 minutos e muitas vidas e continues depois, te esmiralha e ri disso com a tarja Game Over piscando. Ser do mal era isso. Era ser da turma mais velha que tomava a quadra de jogar bola nos intervalos com o discurso de que Somos mais fortes e mais velhos (nessa ordem), vão jogar em outro lugar!

Fui crescendo com alguns arquétipos sobre o que era mau e o que era bom. Cuspir no chão pode ser emocionante quando, aos 14, se aprende a extrair o próprio catarro dos pulmões, mas é mal; roubar a quadra do futebol da turma de 10 anos tem gosto de vingança, mas é mal; matar aula é mal; roubar balas nas docerias era emocionante, contudo mal, muito mal (depois quem vai pagar por isso?).

Como você é mal. Que maldade. Quem já ouviu isso sempre titubeou entre um sorriso sarcástico indisfarçável e o remorso imediato por expor traços delinqüentes em público. O sentimento de culpa pode variar de acordo com o delito, por exemplo, se você atropela um sapo, de propósito, uma vez recriminado, a culpa pode de deixar até sem graça. No caso de atropelar uma senhora de idade a fim de ganhar dinheiro ou pontos para a próxima fase, desperta o mais maléfico dos semblantes em quem estiver segurando o joystick. Ser mal pode ser bom, ou mau.

Mas outro dia mesmo, ouvi Como vai a Galerinha do Mal? O que responder? Agora me considero um homem regulado, pleno nas minhas escolhas, responsável pelas minhas atitudes. Pensei em algo como: Eu nunca fui "do mal", tio, eu não fumo crack. Talvez seja esse o tipo de resposta que eu sempre quis ter dado, mas nunca tive coragem, porque não sou da turma do mal. Os maus têm como índole a ousadia e a coragem, e é nessas horas que tais coisas aparecem mais nitidamente, na hora de responder com sarcasmo e sem respeito a um chiste – principalmente se for provocado por alguém mais velho, que inspire ordem e superioridade moral.

Os melhores maus são aqueles que detonam com a velha guarda dos conceitos arcaicos. Não por acaso caem nas graças do povo e, com o tempo, invariavelmente, podem ser absorvidos pela sociedade, não como algo venal, mas como uma questão de atitude selvagem. Assim nos atraímos por rockstars, grafiteiros, pilotos de f1 malacos, e apresentadores polêmicos; no geral, artistas que vivem nos excessos. Normalmente quem desvia os costumes (para o lado mal) ganha com isso, ou morre de overdose.

Essa parcela de pessoas, porém, é muito pequena. A ordem do mundo pode ser mantida pelas pessoas que são, e se conformam em ser, do bem. Aqueles que primam pelos bons costumes mandam no mundo, nas coisas, nas leis; enfim, ditam as regras. Eles podem até ter o seu lado mal, mas são muito mais benevolentes que malévolos. Digo isso porque imagino a mente do Nelson, dos Simpsons, um cara mau por natureza e caricatunização, em pessoas como o Kim Jong-Il, ditador (dono) da Coréia do Note ligando para o Mahmoud Ahmadijad presidente (proprietário) do Irã. Em uma ligação, eles podem acabar com o mundo, ou seja, são maus, mas poderiam ser ainda piores, ao passo de ainda manterem uma chama do bem nas suas devidas proporções.

Eu não sou da turma do bem, mas ser da turma do mal é muito ser do PCC, ser da al Qaeda ou ser usuário de drogas (?). Fumar crack é mal, atirar em policiais é muito mal, detonar dois arranha céus é quase o cúmulo da maldade. Ser mal deve vir com o indivíduo. Ser mal é uma questão de excesso de bondade a qual muitos são marginalizados?

Entre o bem e o mal, saio isento. Impossível não ter maldade, impraticável é ser bom o tempo inteiro. Só acho errado subjugar alguém, por mais que tente soar interessante, e fale ao léu: Como estão as coisas com a turma do mal? Quanta malandragem, quanta sagacidade. Somos maus, somos malandros, somos marginais. Eu não. Perdeu, playboy.

PS: E as diferenças entre o mal e o mau? Acertei na gramática? Essas ficam para a próxima.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Eu sou um açaí

Chega no caixa e diz:

- Oi. Eu sou um açaí, com granola e banala fatiada.

- Prazer, eu sou o R$ 10,20.

- Oi?

- Oi.

- Deu dez e vinte?

- Não, eu sou macho. Apesar de você pagar, eu não dou.

- Oi?

- Oi.

- Ãhn... Você aceita cartão.

- Só débito.

- E tique?

- Oi?

- Oi. Tique, você pega?

- Não sabia que se pagava tique. Achei que era algo que se adquiria.

- Como assim? Eu ganho.

- Ganha? Você ganhou aonde, na guerra?

- Não. Eu trabalho. Ganho do RH.

- Onde você trabalha deve ser uma guerra, não?

- Não. Você aceita tique?

- Não.

- Droga, posso passar um cheque?

- Ta amassado? Eu aceito mesmo assim.

- Não. Não ta amassado, engraçadinho, você tem a maquininha?

- De passar? E existe máquina de passar cheque?

- Não de preencher o cheque!

- Mas, ó, se for para passar roupa tem uma lavanderia ali na rua de trás.

- E caneta? preciso preencher.

- Preencher o que? A barriga, com uma caneta ?!

- Não, o cheque, tenho que fazer um cheque de dez e vinte, senão não saio daqui.

- Como você vai fazer um cheque, trouxe uma impressora?

- ... Não.

- E então como?

- Você tem uma caneta ou não?

- Tenho, um momento.

Volta.

- Ei-la.

- Obrigado.

Preenche. Entrega:

- Espera aí.

- O que foi, quer que eu coloque o telefone atrás?

- Esse não é você.

- Como não, sou eu sim, quer documento?

- Não precisa, eu reconheço um de vocês de longe, daqui do restaurante mesmo.

- Por que? Você já me viu aqui?

- Não, você não disse que era um açaí, com granola e banana fatiada?

Há !
 
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